Para quem ainda não sabe direito do que se trata, Campus Party é um encontro de tecnologia e conteúdo, cuja ideia nasceu em 1996, na Espanha. Campus Party, de acordo com seu idealizador, Paco Ragageles, é uma evolução das Lan Parties.
Hoje, a Campus Party acontece em seu país de origem e também no México, na Colômbia e no Brasil. A primeira versão tupiniquim da CP foi há dois anos, em São Paulo. Naquele ano, não participei. Trabalhava no finado portal de vídeos WeShow e nem me lembro o motivo de não ter ido.
Na edição de 2008 no Brasil, o evento contou com 3,3 mil inscritos. O número dos que acamparam não passou de 1,8 mil e as áreas de software livre e robótica foram as que mais receberam atenção e mais inscrições do público.
Em 2009, a CP cresceu bastante e lá estava eu para uma semana de alguma coisa que eu não sabia bem o que era, até chegar no encontro. Era a Campus Party Brasil 2009, um mundo em um pavilhão à beira da Rodovia Imigrantes. Maior do que em 2008, contou com uma conexão divulgada de 10GB/s de velocidade, o dobro da anunciada na edição anterior.
A primeira sensação que tive foi o choque com o tamanho do evento. Por mais informações que tivesse, por mais gente que conhecesse que estaria lá e que já tinha ido no outro ano, acho que minha mente não tinha alcançado a continentalidade que é aquele pavilhão e a maneira como as informações – e o melhor: a troca delas – ocorrem, em plena e inevitável conexão com o “resto do mundo”.
Em 2010, seis mil campuseiros compartilharam novamente uma conexão de 10GB/s de velocidade.
Tanta informação assim é dividida em áreas, de acordo com o tema de cada: ciência, entretenimento digital, criatividade e inovação. Eu sempre fico por perto da Arena de Criatividade, na área voltada à discussão de conteúdo. Claro que dou uma passada pelos outros debates, mas meu negócio mesmo é gente e não ferramentas. Sei usá-las para conversar com pessoas, mas não tenho a audácia entendê-las com profundidade e embasamento demasiado técnico.
Em 2010, a Campus Party recebeu Scott Goodstein. O moço é simplesmente o responsável 2.0 da campanha para presidência de Obama. Um discurso que eu perdi. Ainda não estava em São Paulo. Quem viu, gostou e bateu palma com força.
E é este sentimento 2.0 que borbulha por lá, por entre as mesas e arenas. Campus Party é um tipo de evento que independe da exclusividade e da formatação das mídias tradicionais para garantir seu sucesso (aliás, ainda é possível falar em exclusividade de mídias tradicionais? Acho que não).
Ao contrário, o conteúdo gerado na Campus Party se perpetua online através das mãos dos internautas e dos participantes, principais responsáveis pelas notícias de tudo o que no pavilhão ocorre.
Um dos focos, além das ferramentas e downloads - sempre muito comentados -, é justamente a tentativa coletiva de expressão e compreensão das práticas sociais e políticas, consequência direta do advento da comunicação online. Esta, uma forma de se comunicar já intrínseca no comportamento dos cidadãos das grandes cidades, que dela se utilizam a qualquer hora e de qualquer lugar. Se imaginou com seu smartphone na mão? Pois é.
Percebendo a necessidade de se integrar com seus consumidores, eleitores e usuários, empresas e governos (ou aspirantes a) voltaram suas atenções para o evento em 2010.
Há, ainda, aqueles que preferem ignorar a importância da comunicação online – ponto para as redes sociais, a cada dia se tornando mais importantes. Estes que não se importam, segundo expressão usada em uma mesa de debates sobre o assunto este ano, estão dando “um tiro no pé”.
Contudo, alguns olharam e enxergaram a rede de comunicação, principalmente as redes sociais, e sua grandiosidade não somente física. Perceberam que, assim como o mundo e o modo como as informações sobre ele correm pela internet, a Campus Party não para. Tanto é que acontece muita coisa durante a madrugada (nerds e geeks são muito conhecidos por serem notívagos, assim como felinos).
Um retrato óbvio e bastante interessante da mudança na percepção externa sobre o encontro foi a própria mídia tradicional começar a retratá-lo de maneira, vamos dizer, menos equivocada. Penso nas matérias veiculadas no ano passado que, praticamente, só se preocupavam em filmar um sósia do Dr. Brown (aquele do filme De Volta para o Futuro) que ficava passeando por entre as mesas, grosso exemplo do que é a Campus Party.
Me recordo também da cara das pessoas, desde os que trabalhavam comigo na época aos meus amigos da praia, ao ouvirem minha empolgação quando falava da CP. Este ano, alguns deles deram o ar da graça por lá. É muito bom e muito importante para a nossa evolução coletiva essa nova perspectiva. Fiquei muito feliz de encontrá-los.
A coisa mudou mesmo. Em 2010, contamos com as ilustres e presidenciáveis presenças de Marina Silva e Dilma Rousseff. Ano passado, praticamente só o sempre “prafrentex” Gilberto Gil apareceu para cantar um pouco (além de palestras, shows são comuns no evento).
O discurso de Marina Silva foi muito bem aceito pela juventude presente, que demonstrava apoio à candidata Verde sem medo de ser feliz. Marina foi muito bem, é verdade, mesmo sem contar grandes novidades. Mas escorregou ao dizer, no Barcamp (um dos locais de debate) e com o microfone em punho, que “não estava ali para fazer campanha política”. Faça-nos o favor, Marina. E esse escorregão se confirmou quando, posteriormente, ela declarou à imprensa que sim, estava lá fazendo campanha, já que todo mundo está…
Dilma foi ao evento no mesmo dia, mas chegou lá mais tarde, depois de Marina deixar o pavilhão. Passeou por entre as mesas, apertou mão de robô, elogiou blogueiros, enfim, fez campanha também. Ao lado de Marcelo Branco, principal organizador da Campus Party, deu entrevista coletiva em tom de discurso e afirmando que as eleições deste ano não vão poder passar sem o debate e a opinião dentro da internet, sem os blogueiros e sem os tuiteiros. Está certa ela. Marina Silva também adotou esta fala em suas respostas, que eram em tom de discurso. Dilma só deu entrevista, Marina participou do Barcamp.
Dilma falou de direitos autorais e lembrou de algo importante e debatido na mesa que discutia o Direito e a Internet, um dia antes da vinda da petista. A pré-candidata falou sobre bom senso no uso dos canais de comunicação e sobre a nova legislação: “Ela trata da Era Digital, da Era da Internet. Nessa Era, temos um outro conceito de propriedade e temos que preservar o justo direito ao ganho, mas permitir que o uso não-comercial seja assegurado”.
Mencionou a impossibilidade de capitalização da informação e disse que a internet é a “grande praça da modernidade”, fazendo referência à democracia atenienese de outrora, quando pessoas se reuniam em praça pública para discutir e fazer política. E discutir política é fazer política, afinal.
Apesar de uma das organizadoras ter passado de mesa em mesa pedindo para que respeitassem a entrada de Dilma no pavilhão, fiquei sabendo através de amigos que um ou outro insistiu na falta de cortesia e vaiou a pré-candidata. O caso aconteceu próximo à arena de blogs, mas não viralizou. Talvez a pequena falta de tato da organizadora ao pedir respeito à Dilma tenha contribuído um pouco. Mas nada justifica. A vaia fica aqui registrada para quem não teve educação e não respeitou a Ministra.
Estes foram pontos altos da festa, na minha humilde opinião. Mas é tanta diversidade nas arenas montadas que fica mesmo complicado de se retratar ou de se definir como foi a Campus Party 2010.
Para não deixar todos os holofotes voltados a um só lado, precisamos mencionar os debates da nova arena, a Campus Forum. Discussões interessantes como o Plano Nacional de Banda Larga e a Reforma do direito autoral e Direitos Humanos online ocorreram por lá. Imperdível também.
Entre palestras, debates, oficinas, concursos, intervenções e uma infinidade de outros acontecimentos, totalizando-se mais de 500 horas de geração de informação, a verdade é que muita coisa rolou.
Para alguns, Campus Party ainda é considerado “programa de índio”. E até que esta referência se encaixa, já que eles, os índios, participam do evento e, não raramente, você cruza com vários no pavilhão.
É programa de índio sim! E é dos melhores! Para todas as tribos que se interessam pelo mundo em que vivem e pela maneira de se fazer e de se estar em comunicação com tribos vizinhas e com os outros integrantes da própria oca. A internet é uma grande aldeia.
E Campus Party é indispensável para todo tipo de curioso.
A presença de quem está ativamente online é requisito, nem que seja para ver e conhecer quem também influencia na maneira de se pensar e de se fazer internet.
Ou mesmo para somente apertar a mão daquele cara que você segue no Twitter e nunca teve a oportunidade de saber mais sobre, ou de se fazer conhecer por ele offline, o que é igualmente importante.
Campus Party é networking, é troca de ideias. É escutar, é dizer, é colaborar, é discordar, é concordar, é ver e ser visto. É uma representação muito interessante do velho mundo e do novo mundo que nos chegou cheio de disposição, presente da internet. Mundo em que, inescapável e inevitavelmente, vivemos.
Quem não foi esse ano, assim como no ano passado, perdeu.
Ano que vem tem mais e certamente vai ser ainda maior e melhor do que a edição de 2010. Os índios estamos na torcida!
Nos esbarramos no pavilhão em 2011.