Na busca por uma resposta à pergunta “Somos quem aparentamos ser nas redes socais?”, dei de cara com o resultado de uma pesquisa da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, que afirma categoricamente que sim. A pergunta não é nova, nem a conclusão do estudo (que é de 2009), mas fiquei com essa questão na cabeça como desdobramento de dois fatos recentes: um pessoal, e outro coletivo. Ambos me levaram a constatar que ou todas essas possibilidades de interação nos tornaram pessoas muito carentes, ou a carência humana acabou sendo revelada com a facilidade ofertada pelas tecnologias.
Confesse aqui, ninguém vai ouvir, você também ficou meio enlouquecido quando percebeu que todos os seus seguidores e seguidos haviam sumido do Twitter na última segunda-feira (10)? Não minta! Pelo o que vi na imprensa, nos sites, na minha timeline e no burburinho do mundo real (sim, ele existe. E nele as pessoas também só falam do Twitter) muita gente ousou sugerir até em “fim do mundo” diante do zero estampado nos seus perfis. Exageros e piadas a parte, essa falta de ter com quem conversar via redes sociais irrompeu a percepção de como em tão pouco tempo esse bendito microblog se inseriu na vida das pessoas.
Do babalaô (*) ao relevante - Porque se na década de 1970 ser in era vestir saias longas e estampadas, calças boca de sino e usar muitos penduricalhos na origem do que é o estilo hippie; e aí ouvir rock progressivo e se inserir na nova onda; em 2010 não só é saber o que significa “baleiar” como ter um perfil no Twitter com muitos seguidores e mais RTs ainda.
Eu sou
Você é também
E todos juntos somos nós
Estou aqui reunido
Numa pessoa só
E todos juntos somos nós
Uma pessoa só
(Uma Pessoa Só, Mutantes)
Eu, você e muita gente tem pelo menos um amigo que acabou ficando meio espiroqueta (**) por ter como meta na vida chegar a 1.000, 5.000 ou 100.000 seguidores. Não é verdade? Isso virou objetivo de vida. Adeus casa própria, estabilidade financeira ou um grande amor. O bom mesmo é ser seguido. (Cansativo!) E para isso vale tudo. Ser engraçadinho, cri-cri, ousado, entendido ou verborrágico. Mas, convenhamos, não é toda hora, nem todo dia, que temos algo de veras inteligente para dizer. E aí retomo a questão principal: que carência é essa de falar, ser ouvido e ser aplaudido diariamente via redes sociais? Somos mesmo essas pessoas que estão se expressando em 140 caracteres?
De acordo com a tal pesquisa que mencionei lá em cima, sim. O psicólogo Sam Gosling, coordenador do estudo, afirma que os dados coletados em entrevistas nos Estados Unidos e na Alemanha mostraram que nas redes sociais – por ser um ambiente de interação social - os hábitos acabam sendo muito similares aos do uso do telefone, indicando que as pessoas parecem interagir de forma similar.
Eu vou ousar discordar. Acredito que os nossos perfis sejam frações de nós mesmos, parte do que queremos e conseguimos mostrar. E como na vida, há erros e acertos nessa experiência. Há pessoas capazes de viver “doispontozeromente” de maneira verdadeira e saudável ou através de arquétipos e até mesmo esquizofrênica. Isso válido para perfis pessoais, comerciais ou institucionais. Acho sim que há muitos narcisos, cada vez em número maior, mas isso não é definitivo, muito menos regra.
O que importa é ter cuidado e moderação no uso. Mesmo com um zero estampado, tem muita gente sabendo o que você fez no verão passado. E aí, vale a dica de uma galera que já sabia das coisas nos anos 70… “Só não vá se perder por aí...”
Gírias dos anos 1970, no Rio de Janeiro:
Babalaô - A pessoa mais importante do lugar
Espiroqueta - Maluquinho
Leia mais:
5 dicas para usar bem o Twitter e evitar problemas profissionais
Boa reflexão Naila!
A provocação que faço, no entanto, é:
Será que as pessoas são mais parecidas com elas mesmas (naquilo que elas são e sentem, lá no fundo) do jeito que são nas redes sociais ou do jeito que são na vida real?
Nos dois casos há uma grande parte de fingimento e de “esconde-esconde”, mas será que as pessoas não se expõem até mais (como elas mesmas) nas redes sociais, e daí a diferença entre o que se vê no físico e no virtual?
#sopraporlenhanafogueira
Não fiquei nem apreensiva, juro. Eu uso um client, não acesso o Twitter pela página, então só reparei que os contadores haviam zerado quando tuitaram a respeito. Como eu recebia os updates normalmente, nem me preocupei.
Agora, concordo com você sobre a carência das pessoas com essa coisa de ter seguidores. Pensei que só eu usava essa palavra para definir tal comportamento, rs. O que quer dizer ter tantos seguidores? Luciano Huck tem mais de um milhão deles e não fala nada de interessante. Acho que essa questão depende também do uso que a pessoa faz do Twitter, mas esse é um papo pra outra hora.
Gostei do post!
Faço coro com você. Acredito que os diversos perfis que criamos nas redes sociais representam apenas parte do que somos na realidade, não, em sua totalidade como constatou a pesquisa. Pessoas de poucas palavras twittam pouco. Outras gostam bastante de falar, aparecer e aproveitam a ferramenta. O twitter seria, nesse caso, uma fonte que abastece a carência de milhares de pessoas, que se sentem saciados ao manisfestarem suas opiniões em poucos caracteres.
Adorei o seu texto. Muito gostoso de ler.