Por Wladimir Gramacho, sócio-diretor do Instituto FSB Pesquisa
Um dos principais focos da análise sobre a corrida presidente no Brasil em 2010 ocupa-se da capacidade de transferência, sob a forma de votos, da popularidade do presidente Lula para sua candidata Dilma Rousseff. A última pesquisa de aprovação de governo do Instituto Datafolha, realizada nos dias 30 de junho e 1º de junho, revelou que 78% dos brasileiros avaliam o governo Lula como bom ou ótimo. Um nível inédito na história democrática recente do país. Que implicações isso pode ter sobre o resultado que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciará em outubro?
Nos últimos tempos, a experiência mais semelhante ocorrida em país vizinho deu-se na última eleição uruguaia. Em 2009, o presidente Tabaré Vázquez – aprovado por 64% da população, apoiou o candidato José Mujica, que teve 48% dos votos válidos no primeiro turno. Precisou de um segundo turno para ratificar sua eleição. O contraponto certamente foi a eleição chilena, na qual o candidato Eduardo Frei somou 30% dos votos válidos em primeiro turno quando a presidente Michelle Bachelet contava com aprovação de 74%.
A história recente do Brasil nos conta que em 1989 o candidato Ulysses Guimarães – mais associado ao governo – teve 4% dos votos em primeiro turno, enquanto a gestão de José Sarney era aprovada por apenas 5% dos brasileiros (soma de bom e ótimo em pesquisas do Datafolha). Em 1994, o candidato FHC teve 54% dos votos válidos representando nas urnas o governo Itamar Franco, aprovado por 40% da população. Em 1998, FHC era aprovado por 43% dos brasileiros e teve o voto de 53% dos eleitores. Em 2002, o candidato tucano José Serra obteve 23% dos votos válidos quando o governo FHC já contava com apenas 26% de aprovação popular. Finalmente, em 2006 o presidente Lula conseguiu 49% dos votos válidos em primeiro turno enquanto tinha 64% de aprovação.
O gráfico abaixo resume os dados de popularidade e voto em 20 eleições ocorridas nos últimos dez anos nas Américas, onde o regime de governo consagrado é o presidencialismo. A associação é positiva e moderadamente forte, os casos estão bastante próximos da reta que resumiria a relação matemática entre popularidade e voto. Como a ciência política está longe das ciências puras, não se pode dizer que a experiência brasileira em 2010 estará mais perto ou mais distante da reta. A três meses das eleições, contudo, o mais provável é que a candidatura da petista Dilma Rousseff obtenha em primeiro turno um importante percentual de votos provenientes da parcela da população que aprova o governo Lula.
Uma análise de regressão simples com base nesses dados sugere que o candidato oficial tem em média 70% da popularidade do governo que representa. Pode ter mais ou menos, mas a média das 20 eleições é essa. Se isso se aplicar à risca ao Brasil em 2010, significa dizer que Dilma terá 55% dos votos válidos em primeiro turno caso Lula mantenha até lá seu atual nível de aprovação. Como toda média tem algum grau de dispersão (desvio-padrão), isso não significa que a candidata petista vencerá em primeiro turno, mas está claro que existe na região uma tendência de influência da avaliação positiva do governo sobre o desempenho dos candidatos da situação.
