Francisco Soares Brandão: Ressignificar ou ser ressignificado

O mundo definitivamente não será como antes depois desta pandemia. E empresas e organizações precisarão entender, avaliar e acompanhar essas novas tendências. Os desafios e a complexidade do momento obrigam tomadores de decisão – incluindo empresários de todos os setores – a agir rápido e a ressignificar seus negócios e métodos de atuação.

Os padrões a que estávamos acostumados estão sendo contestados ou revistos. Novos padrões começam a aparecer, em um mundo digital por obrigação e não mais por alternativa, onde o fluxo de informações é maior do que nossa capacidade de analisar e compreender.

A sociedade já não é mais a mesma e exige que as instituições se comprometam com padrões de comportamento diferenciados, com ênfase em questões como ética, transparência, responsabilidade ambiental, compromisso social, empatia etc. Isso era uma realidade antes e se intensificará num cenário pós-pandemia.

A oportunidade, portanto, está aí: existe uma imensa janela para quem quiser liderar o processo de transformação – caso não queira ser atropelado por ela. Isso vale para o setor privado, mas tem impacto direto no ambiente político também.

Para isso, qualquer instituição precisará lidar com o processo de desintermediação de conteúdo, que ganhou força com o crescimento do digital, acontece em todas as áreas e não poupou nem o meio político. Em um ambiente de crise e polarização, os cidadãos ganharam poder e instrumentos tecnológicos para cobrar, se engajar, viralizar, construir e destruir reputações com extrema velocidade. As redes sociais viram fontes primárias de informação e geram audiências e engajamentos relevantes.

Vale ressaltar que, do mesmo jeito que trouxe poder e benefícios em potencial para a sociedade, essa tendência aumentou também os problemas. Venho alertando há tempos sobre os riscos da proliferação das Fake News – notícias criadas/inventadas e disseminadas para desinformar a opinião pública com objetivos financeiros ou políticos – uma questão que precisa ser tratada com seriedade pela sociedade.

Mesmo com esses problemas, o empoderamento da sociedade não tem volta. Empresas e organizações precisam, portanto, aprender a lidar com um cidadão/consumidor/eleitor mais ativo, mais exigente e armado tecnologicamente para exercer seu papel de fiscal do comportamento das instituições.

Nestes últimos meses, vimos como sofreram, inclusive com movimentos de boicote, algumas marcas que adotaram comportamentos menos empáticos em relação ao impacto da pandemia. Outras, em compensação, se engajaram, investiram e souberam comunicar para a sociedade seu comprometimento, com uma mudança clara no patamar histórico de investimento social no Brasil. Sem dúvida ganharam pontos no processo de construção e valorização de sua imagem pública.

O desafio, portanto, é ressignificar ou ser ressignificado. As organizações precisam refletir sobre suas práticas e entender que o mundo já vinha mudando e passará por mudanças ainda mais profundas. Quem não perceber isso corre o sério risco de ficar para trás.

Francisco Soares Brandão é empresário e sócio-fundador da FSB Comunicação

Matéria do O Globo